quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Os Mortos - Dublinenses - James Joyce

“— Senhoras e Senhores, uma nova geração desenvolve-se em nosso meio. Geração animada por novas ideias e novos princípios. Ela leva a sério e entusiasma-se por essas ideias, e seu entusiasmo, mesmo quando mal dirigido, parece-se totalmente sincero. Mas estamos vivento uma época cética e, se assim posso dizer, torturada pelo pensamento. E por vezes receio que esta nova geração, educada ou super educada como é, careça de humanidade, hospitalidade e bom humor que constituíram o apanágio dos tempos antigos."



Conversaremos agora sobre o último conto que escolhi da obra Dublinenses. Com certeza, meu favorito! 
“Os mortos” é dividido em três partes e o conto inteiro parece ser uma alusão às fases de nossa vida. Uma reafirmação da proposta inteira do livro que nos aponta para os sentimentos vividos por todas as transformações que passamos ao decorrer de nossa existência.
A primeira parte pode ser representada pela infância e toda a sua excitação e agitação que sentimos diante do novo. Somos apresentados ao início de uma festa tradicional na casa das irmãs Morkan que costumam reunir amigos e famílias uma vez ao ano. 
Lily, a filha do zelador, recebe e conduz os convidados. As irmãs anfitriãs, Kate e Júlia, estão ansiosas pela chegada de seu sobrinho Gabriel com sua esposa e nervosas com a chegada de outro sobrinho, Freddy que provavelmente chegará embriagado. 
Quando Gabriel chega, Lily o recebe e enquanto sua esposa Gretta acompanha suas tias, o rapaz começa um diálogo com a menina:
“— Diga-me Lily — perguntou em tom amável —, você ainda vai à escola?
— Oh, não senhor! Deixei de estudar há mais de um ano.
— Suponho então — acrescentou Gabriel, brincando — que um dia desses iremos ao seu casamento?
— Os homens de hoje são todos uns aproveitadores bons de conversa.”
Gabriel fica completamente desconfortável pela resposta da moça e começa a repensar até mesmo seu discurso da noite. 
A narrativa vai fluindo e vamos percebendo que a aspereza da resposta da menina, faz com que Gabriel perceba que uma mudança está acontecendo com as pessoas. Se antes, só restava às mulheres pensarem em seus casamentos, agora Lily demonstra que existe algo de diferente na mente feminina e ao decorrer da festa, vamos percebendo que não apenas a mente feminina está em transformação, mas uma nova geração com novas ideias está surgindo. 
A segunda parte é no decorrer do baile, onde Gabriel vai tendo esta percepção e podemos representa-la como a maturidade, quando começamos a ter uma noção mais realista do mundo e das pessoas e descobrimos nossa real função na sociedade. 
Gabriel resolve repensar seu discurso e o faz causando uma profunda reflexão no leitor:
“— Senhoras e Senhores, uma nova geração desenvolve-se em nosso meio. Geração animada por novas ideias e novos princípios. Ela leva a sério e entusiasma-se por essas ideias, e seu entusiasmo, mesmo quando mal dirigido, parece-se totalmente sincero. Mas estamos vivento uma época cética e, se assim posso dizer, torturada pelo pensamento. E por vezes receio que esta nova geração, educada ou super educada como é, careça de humanidade, hospitalidade e bom humor que constituíram o apanágio dos tempos antigos. Ouvindo o nome de todos esses grandes cantores do passado pareceu-me, devo confessar, que vivemos em uma época mais pobre. Aqueles tempos podem, sem exagero, ser qualificados de espaçosos e se já não voltam mais, esperemos, pelo menos, que em reuniões como esta recordemo-los com afeto e orgulho e acalentemos em nossos corações a memória desses grandes mortos, cuja glória o mundo não deixará de parecer. 
... 
— Entretanto — prosseguiu Gabriel, tomando uma inflexão mais suave —, em encontros como este sempre nos ocorrem tristes recordações: lembranças do passado, da juventude, de mudanças, de rostos ausentes cuja falta sentimos. Nossa passagem pela vida é marcada por muitas recordações e, se tivéssemos de pensar nelas todo o tempo, não nos sobrariam forças para desempenhar corajosamente nossas tarefas entre os vivos. Todos nós temos deveres e afetos para com os vivos que, com todo direito, reclamam nossa incansável dedicação.”
Resolvi separar um trecho tão grande, para apontar para todo o significado desse conto. Através disso, podemos perceber que o que Joyce quis nos dizer está resumido nas palavras de Gabriel. 
Na terceira parte, Gabriel e Gretta vão para o hotel e o homem está absolutamente excitado pelo sucesso de seu discurso. A paixão por sua esposa está explodindo, mas quando se dá conta, ela está distante e com olhar entristecido. Essa parte representa a velhice e o declínio da vida para a morte. 
Após uma revelação, o coração de Gabriel se enche de sombras e amargura e toda sua excitação e felicidade cedem lugar para a angústia e decepção. 
“Sua alma acercava-se da região habitada pela vasta legião dos mortos. Pressentia, mas não podia apreender suas existências vacilantes e incertas. Ele próprio dissolvia-se num mundo cinzento e incorpóreo. O mundo real, sólido, em que os mortos tinham vivido e edificado, desagregava-se.
...
 Sua alma desmaiava lentamente, enquanto ele ouvia a neve cair suave através do universo, cair brandamente, como se lhes descesse na hora final, sobre todos os vivos e todos os mortos.”
Portanto, mergulhar em Dublinenses trata-se de uma experiência única e inesquecível! Principalmente no conto “Os Mortos”, em que podemos perceber que James Joyce estava nos mostrando que tanto a vida quanto a humanidade passam por profundas transformações e que estaremos sempre entre o amor e a segurança da tradição, e o temor, agitação e insegurança que sentimos pelo novo, pelas novas culturas e pelo mundo que deixaremos nas mãos das novas gerações. 

2 comentários:

Postagens Populares

Recentes

recentposts

Aleatório

randomposts